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Português30 de agosto de 20264 min de leitura

Regência verbal: os verbos que mudam de sentido conforme a preposição

Assistir, aspirar, visar, proceder, implicar. Um punhado de verbos responde por quase toda questão de regência — e todos têm dois sentidos com regências diferentes.

Regência verbal cai em quase toda prova, e quase sempre pelo mesmo mecanismo: um verbo que tem dois sentidos, cada um com uma regência diferente. A banca usa o sentido A com a regência do sentido B, e pronto.

Não é preciso decorar lista de cem verbos. Uns doze respondem pela maioria absoluta das questões.

Os que mudam de sentido com a preposição

Assistir

  • Ver, presenciar → transitivo indireto, pede a.

    Assisti ao julgamento.

  • Ajudar, prestar assistência → transitivo direto.

    O médico assistiu o paciente.

  • Caber, pertencer (direito) → transitivo indireto.

    Esse direito assiste ao trabalhador.

  • Morar → intransitivo, com em.

    Assiste em Brasília. (uso hoje raro, mas cobrado)

Aspirar

  • Inalar → transitivo direto.

    Aspirou o ar puro da manhã.

  • Desejar, almejar → transitivo indireto, com a.

    Aspira ao cargo de analista.

Detalhe que a banca adora: no sentido de desejar, não se usa pronome oblíquo átono "o/a", e sim "lhe" — ou melhor, a forma tônica: "Aspira a ele".

Visar

  • Mirar, apontar → transitivo direto.

    O atirador visou o alvo.

  • Dar visto, assinar → transitivo direto.

    O gerente visou o cheque.

  • Ter por objetivo → transitivo indireto, com a.

    A medida visa à redução de gastos.

Proceder

  • Ter fundamento → intransitivo.

    A alegação não procede.

  • Originar-se → com de.

    O trem procede de São Paulo.

  • Realizar, dar início → com a.

    Procedeu-se à leitura do edital.

Implicar

  • Acarretar, ter como consequência → transitivo direto. Sem preposição.

    O atraso implicou prejuízo ao serviço. (não "implicou em prejuízo")

  • Envolver-se, ter implicância → com com.

    Vive implicando com o colega.

O uso de "implicar em" no sentido de acarretar é o erro mais cobrado da lista.

Os que se distinguem pelo objeto

Esquecer e lembrar

  • Sem pronome → transitivo direto, sem preposição.

    Esqueci o prazo. / Lembrei o prazo.

  • Com pronome (esquecer-se, lembrar-se) → transitivo indireto, com de.

    Esqueci-me do prazo. / Lembrei-me do prazo.

A combinação errada — "esqueci do prazo" — é comum na fala e errada na norma culta.

Preferir

Transitivo direto e indireto: prefere-se uma coisa a outra.

Prefiro estudar de manhã a estudar à noite.

Reforços como "muito mais", "antes" ou "do que" são considerados incorretos na norma culta: "prefiro isso do que aquilo" e "prefiro muito mais" são as formas que a banca marca como erradas.

Obedecer e desobedecer

Transitivos indiretos, com a:

Obedeceu às normas. / Desobedeceu ao regulamento.

Curiosidade cobrada: apesar de indiretos, admitem voz passiva — "As normas foram obedecidas".

Informar, avisar, notificar, certificar

Transitivos direto e indireto, com dupla possibilidade de arranjo:

Informei o candidato do resultado. Informei o resultado ao candidato.

O que a banca cobra é a mistura errada: "informei ao candidato do resultado" (dois indiretos) não se sustenta.

Namorar

Transitivo direto. Sem "com".

Namora a colega de trabalho.

Chegar e ir

Pedem a, não em, para indicar destino:

Cheguei a casa. / Vou ao cinema.

"Cheguei em casa", embora universal na fala, é apontado como desvio em prova.

Custar

No sentido de ser difícil, tem como sujeito a oração, e a pessoa vem como objeto indireto:

Custou-me aceitar a derrota. (não "custei a aceitar")

Simpatizar e antipatizar

Intransitivos com com, e — detalhe cobrado — não são pronominais:

Simpatizei com ele. (não "simpatizei-me com ele")

Regência nominal: os que mais aparecem

Substantivos, adjetivos e advérbios também regem preposição, e a prova costuma cobrar estes:

TermoPreposiçãoExemplo
acessívelaacessível a todos
ansiosopor / deansioso por resultados
aptoaapto a exercer o cargo
compatívelcomcompatível com o cargo
curiosode / porcurioso de saber
favorávelafavorável à proposta
imuneaimune a críticas
preferívelapreferível a qualquer outra
propensoapropenso a erros
respeitoa / porrespeito às normas

Como a questão costuma vir

Três formatos se repetem:

  1. Substituição: trocar um verbo por outro de regência diferente, mantendo a preposição antiga. "A medida visa à economia""A medida busca à economia" (errado: buscar é direto).
  2. Crase como consequência: se o verbo pede a e o complemento é feminino com artigo, há crase. Regência e crase caem juntas com frequência.
  3. Pronome: trocar "lhe" por "o/a" ou vice-versa. Verbo direto pede o/a; indireto pede lhe.

O caminho mais curto para dominar regência é a substituição: sempre que estudar um verbo da lista, escreva as duas frases, uma para cada sentido. É a comparação que fixa — a regra isolada some em uma semana.

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