Crase: as sete situações que as bancas repetem (e o teste que resolve quase todas)
Crase não é sobre decorar dezenas de regras. É sobre reconhecer sete situações que se repetem em prova e aplicar um teste de troca que funciona na maioria delas.
Crase assusta mais do que deveria. A sensação de que "são muitas regras" vem de material que lista trinta casos sem hierarquia. Em prova de concurso, o mesmo punhado de situações se repete — e um único teste resolve a maior parte delas.
Vamos ao essencial primeiro.
O que é crase, em uma frase
Crase é a fusão de duas vogais idênticas. Na prática das provas, é quase sempre a fusão da preposição a com o artigo definido feminino a. O acento grave (à) marca essa fusão.
Daí decorre a condição dupla que resolve tudo: só há crase quando existem, ao mesmo tempo, preposição exigida pelo termo anterior e artigo aceito pela palavra seguinte. Falta um dos dois, não há crase.
O teste da troca pelo masculino
É o atalho mais confiável e o único que vale memorizar.
Troque a palavra feminina por uma masculina equivalente e veja o que acontece:
- Assisti à peça. → Assisti ao filme. Apareceu "ao" → tem crase.
- Refiro-me à questão. → Refiro-me ao problema. → tem crase.
- Cheguei a casa. → Cheguei a (não "ao") lar. → sem crase.
- Ele começou a estudar. → não há troca possível: "estudar" é verbo. → sem crase (nunca há crase antes de verbo).
Se ao trocar surge ao, use à. Se surge apenas a ou o, não use.
O teste falha em poucos casos — os pronomes de tratamento e algumas locuções — que vamos ver adiante e que são justamente os que caem com regularidade.
As sete situações que se repetem em prova
1. Verbo que pede preposição "a" + substantivo feminino
O caso mais cobrado. Verbos como assistir (no sentido de ver), referir-se, obedecer, responder, dirigir-se, aludir.
Os candidatos obedeceram às normas do edital.
Troca: obedeceram aos regulamentos. Tem crase.
Atenção à pegadinha clássica: assistir no sentido de ajudar não pede preposição.
O médico assistiu o paciente. (ajudou) O público assistiu ao jogo. (viu)
2. Antes de palavra masculina — só com "moda de" ou "maneira de" subentendido
A regra geral é firme: não há crase antes de palavra masculina. A exceção consagrada é a elipse de "à moda de":
Bife à milanesa. (à moda milanesa) Escreve à Machado de Assis. (à maneira de Machado)
Fora dessa construção, palavra masculina depois de a significa: sem acento.
3. Antes de verbo: nunca
Começou a chover. Passou a estudar. Estamos dispostos a colaborar.
Verbo não aceita artigo, logo não há fusão possível. Regra sem exceção — e vale como eliminação rápida em prova.
4. Antes de pronomes: quase sempre não
Não há crase antes de pronomes pessoais, de tratamento e da maioria dos indefinidos e demonstrativos:
Entreguei o documento a ela. (sem crase) Dirijo-me a Vossa Senhoria. (sem crase) Não me refiro a esta questão. (sem crase)
As exceções que caem: àquele, àquela, àquilo (o a funde com o a inicial do demonstrativo) e os tratamentos senhora, senhorita, dona — que, ao contrário de "Vossa Senhoria", aceitam artigo.
Refiro-me àquele artigo. Entreguei o processo à senhora diretora.
5. Horas: com crase quando indicam hora determinada
A sessão começa às 14 horas. Ficaremos aqui até às 18 horas. (ou "até as", ambas aceitas)
Mas atenção ao "a" que indica intervalo ou distância no tempo, que não leva acento:
A prova ocorrerá daqui a duas semanas.
6. Nomes de lugar: o teste do "voltar de"
Alguns topônimos aceitam artigo, outros não. O teste prático: diga a frase com voltar.
- Volto da Bahia → vou à Bahia. Tem crase.
- Volto de Brasília → vou a Brasília. Sem crase.
Se o nome do lugar vier com modificador, passa a aceitar artigo:
Vou à Brasília dos anos 60.
7. Locuções: femininas levam acento
Locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas formadas por palavra feminina recebem o acento por convenção — inclusive para evitar ambiguidade:
às pressas, à noite, à vista, à direita, à medida que, à procura de, à exceção de
Compare o efeito na compreensão: matou o homem a bala (com bala) e matou o homem à bala (à maneira de bala) — o acento distingue.
Os três casos facultativos
Bancas costumam cobrar reconhecimento do que é facultativo, e a alternativa "está errado" vira armadilha:
- Antes de nome próprio feminino de pessoa: Referi-me a Maria / Referi-me à Maria.
- Antes de pronome possessivo feminino: Dirigi-me a minha chefe / à minha chefe.
- Depois de "até": Fui até a porta / até à porta.
Nos três, ambas as formas estão corretas. Se a questão afirma que uma delas está errada, a afirmação é falsa.
Um roteiro de trinta segundos para a prova
Diante de um a em prova, pergunte em ordem:
- A palavra seguinte é verbo? → sem crase, próxima questão.
- É masculina? → sem crase (salvo "à moda de").
- É pronome (pessoal, tratamento, demonstrativo)? → sem crase, exceto àquele/àquela/àquilo e senhora/senhorita/dona.
- Sobrou substantivo feminino: faça a troca pelo masculino. Virou "ao"? → crase.
Quatro perguntas resolvem a esmagadora maioria das questões. As locuções você reconhece de tanto ver — e vale manter uma lista curta delas no caderno de revisão.
Vale treinar com questões da sua banca: Cebraspe tende a cobrar crase em assertiva de certo/errado com frase longa, onde o desafio é achar o termo regente. FGV costuma pedir a justificativa da regra, não só o acerto.
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