Interpretação de texto: a diferença entre o que o texto diz e o que você conclui
A maior parte dos erros vem de responder com o que se sabe do mundo, não com o que está escrito. Como separar informação explícita, pressuposto e inferência.
Interpretação de texto é a matéria em que o candidato mais confia no próprio instinto — e por isso a que mais surpreende negativamente no gabarito.
O problema é quase sempre o mesmo: a alternativa diz algo verdadeiro no mundo, mas que o texto não afirma. Você concorda com a frase e marca. A banca queria outra coisa.
A pergunta que corrige a maior parte dos erros
Não é "isso é verdade?". É "isso está no texto?".
Interpretação de texto avalia leitura, não conhecimento prévio. Se o texto trata de desmatamento e a alternativa afirma algo correto sobre desmatamento que o autor não escreveu nem deu a entender, a alternativa está errada para efeito da questão.
Três níveis de informação
Separá-los resolve a maioria dos itens.
1. Explícito
Está escrito, com todas as letras.
Texto: "A taxa de desemprego caiu 2 pontos em 2025." Item: "Houve redução do desemprego em 2025." → correto, é o que está lá.
2. Pressuposto
Não está escrito, mas é condição para a frase fazer sentido. Fica marcado por certas palavras.
"A empresa voltou a lucrar em 2025." Pressupõe: já lucrou antes, e deixou de lucrar em algum momento.
"O gestor também foi responsabilizado." Pressupõe: outra pessoa foi responsabilizada.
"Ainda não há previsão de nomeação." Pressupõe: espera-se que haja.
Marcadores frequentes de pressuposto: já, ainda, agora, voltar a, continuar, deixar de, também, outro, novamente, além dos adjetivos e orações adjetivas.
O pressuposto é considerado informação verdadeira para a questão — ele vem embutido no enunciado.
3. Inferência (subentendido)
Conclusão que decorre do texto, mas depende do contexto e do raciocínio do leitor.
"Ele estudou seis meses e não foi aprovado." Inferência possível: seis meses podem não bastar para aquele concurso.
Aqui está o campo minado. A inferência legítima é aquela que o texto sustenta com necessidade lógica. A ilegítima é a que apenas combina com o assunto.
Teste: é possível o texto ser verdadeiro e a alternativa falsa? Se sim, a inferência não se sustenta.
As armadilhas mais frequentes
1. Extrapolação. A alternativa vai além, generalizando o que o texto disse de um caso específico.
Texto: "No estado analisado, a medida reduziu a evasão." Item: "A medida reduz a evasão escolar." → extrapola do particular para o geral.
2. Troca de intensidade. O texto diz "pode contribuir"; a alternativa diz "garante". O texto diz "alguns"; a alternativa diz "todos". Modalizadores são o alvo preferido das bancas — pode, deve, sugere, indica, comprova, garante não são intercambiáveis.
3. Inversão de relação lógica. O texto apresenta A como causa de B; a alternativa inverte, ou transforma correlação em causa.
4. Atribuição de opinião. O texto relata a posição de alguém; a alternativa apresenta essa posição como sendo do autor.
Texto: "Para os críticos da proposta, o custo seria inviável." Item: "O autor considera o custo inviável." → o autor apenas reportou.
5. Verdade externa. Afirmação correta sobre o mundo, ausente do texto. É a mais difícil de recusar, porque exige desconfiar do que você sabe.
Vocabulário: sentido no contexto
Questões de substituição de palavra não perguntam sinônimo de dicionário — perguntam se a troca mantém sentido e correção naquela frase.
Ao avaliar, verifique três coisas:
- Sentido: a frase continua dizendo a mesma coisa?
- Regência: o novo termo pede a mesma preposição?
- Registro: o nível de formalidade combina com o texto?
Uma troca pode preservar o sentido e quebrar a regência — e isso basta para tornar a alternativa errada.
Coesão: a quem se refere o pronome
Questões de referenciação pedem localizar o antecedente. Duas orientações:
- Anáfora retoma algo já dito; catáfora antecipa o que vem.
- Pronomes demonstrativos seguem uma lógica de distância: este aponta para o mais próximo ou para o que ainda será dito; aquele, para o mais distante ou o mencionado antes.
"João e Pedro chegaram. Este trouxe os documentos; aquele, as fotos." Este = Pedro (mais próximo). Aquele = João.
Roteiro para a questão
- Leia o enunciado antes do texto quando a prova for longa: você lê procurando algo específico.
- Para cada alternativa, localize a linha que a sustenta. Não achou a linha? Desconfie.
- Circule modalizadores na alternativa: todo, sempre, apenas, garante, comprova.
- Pergunte-se se está concordando com o mundo em vez de com o texto.
- Em item de opinião, identifique de quem é a voz.
Um exercício simples e eficaz: ao errar, volte ao texto e tente encontrar a linha que justificaria a alternativa que você marcou. Na maioria das vezes ela não existe — e perceber isso é o que treina a leitura literal que a prova exige.
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