Certo ou errado: como pensar nas questões da Cebraspe sem cair nas armadilhas
A prova de certo/errado tem lógica própria: um erro anula um acerto e uma palavra muda tudo. As marcas de linguagem que denunciam a assertiva falsa.
A prova de certo ou errado parece mais fácil — 50% de chance, certo? Não é bem assim. Com a anulação (cada erro cancela um acerto), chutar tudo tende a te levar a zero. O jogo não é de sorte; é de leitura atenta.
E, felizmente, o erro nessas provas costuma ter assinatura.
A matemática que muda a estratégia
Na sistemática mais comum, cada questão errada anula uma certa. Seu placar é acertos − erros.
Chute aleatório: metade acerta, metade erra, resultado zero. Você gastou tempo para não sair do lugar — e ainda correu o risco de a sorte ir contra.
O cálculo muda quando você tem informação parcial. Com 60% de convicção, a cada dez marcações você acerta seis e erra quatro: saldo +2. Com 70%, saldo +4. A regra prática: marque quando tiver mais do que uma sensação, deixe em branco quando não fizer ideia do que o enunciado trata.
Defina isso antes da prova, numa frase. No meio dela, ninguém calcula.
As marcas que denunciam a assertiva errada
A banca precisa produzir itens falsos a partir de textos verdadeiros. Os recursos que ela usa se repetem:
1. Generalização absoluta
Palavras como sempre, nunca, todo, qualquer, exclusivamente, apenas, em nenhuma hipótese restringem demais. Direito é cheio de exceção, e uma afirmação sem folga costuma ser falsa.
"O direito de greve dos servidores públicos não pode, em nenhuma hipótese, ser restringido."
O "em nenhuma hipótese" é o que derruba o item.
Cuidado: isso é um sinal, não uma regra automática. Há itens absolutos verdadeiros — "a lei penal nunca retroagirá para prejudicar o réu" está correto. O advérbio é motivo para desconfiar e conferir, não para marcar errado de olhos fechados.
2. Troca de competência ou de sujeito
O item descreve corretamente um instituto, mas atribui a ação a outro órgão.
"Compete ao Senado Federal processar e julgar o presidente da República nos crimes comuns."
A descrição está certa para crimes de responsabilidade; nos comuns, quem julga é o STF. Um substantivo trocado no meio de uma frase longa e verdadeira.
Ao ler assertiva de competência, sublinhe quem faz o quê antes de julgar o resto.
3. Prazo, número ou quórum alterado
Cinco anos vira dez, maioria absoluta vira dois terços, 30 dias viram 60. O item fica com aparência técnica e correta.
Se a assertiva tem número, confira o número antes de qualquer outra coisa.
4. Inversão de regra e exceção
O item apresenta a exceção como se fosse o padrão.
"A licitação é dispensável, sendo a contratação direta a regra para a Administração."
Está exatamente invertido — e a inversão passa despercebida na leitura rápida porque todas as palavras são familiares.
5. Nexo causal inventado
Duas informações verdadeiras ligadas por um "portanto", "porque" ou "razão pela qual" que não se sustenta.
"O Brasil adota o sistema presidencialista, razão pela qual o Poder Judiciário exerce controle de constitucionalidade."
As duas partes são verdadeiras. A ligação entre elas é falsa. Em item longo, verifique os conectivos com a mesma atenção que dá ao conteúdo.
6. Enxerto no texto de interpretação
Nas questões de compreensão textual, a assertiva afirma algo plausível, correto no mundo real — e ausente do texto. A pergunta certa não é "isso é verdade?", e sim "isso está escrito ali?".
Como ler o item
Uma sequência que funciona:
- Leia até o fim antes de julgar. A inversão costuma estar na última oração, depois de duas linhas impecáveis.
- Marque os operadores: sempre, apenas, salvo, exceto, desde que, ainda que. Eles carregam a condição que decide o item.
- Isole o núcleo: sujeito, verbo, objeto. Descarte adjuntos por um instante e veja se a afirmação central se sustenta.
- Procure um contraexemplo. Se você consegue imaginar um caso em que aquilo não vale, o item é falso. Para item verdadeiro, nenhum contraexemplo aparece.
- Decida. Certo, errado, ou em branco pela regra que você definiu antes.
O erro de estratégia mais caro
Não é errar item difícil. É mudar resposta no fim da prova.
Sem informação nova, a troca de última hora costuma trocar acerto por erro — e, na sistemática de anulação, cada troca dessas custa dois pontos de saldo. Só mude se lembrar de um dispositivo concreto que contradiz o que marcou. Insegurança sozinha não é motivo.
Como treinar para essa prova especificamente
Resolver questão de múltipla escolha não treina certo/errado. São habilidades diferentes: numa você compara alternativas e escolhe a melhor; na outra, julga uma afirmação isolada, sem ponto de comparação.
Treine com itens da própria Cebraspe e, ao errar, classifique o erro: foi generalização? troca de competência? número? Depois de cem itens você terá o seu mapa pessoal de armadilhas — e vai reconhecê-las na prova antes de ler a assertiva inteira.
Ao revisar um simulado de certo/errado, o mais útil não é ver quantas acertou, e sim reler os itens errados perguntando "que palavra mudaria este item para verdadeiro?". Costuma ser uma só.
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