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Técnicas de estudo30 de agosto de 20264 min de leitura

Revisão espaçada para concursos: como montar o ciclo sem depender de aplicativo

Você não esquece porque estudou pouco. Esquece porque revisou na hora errada. Veja como montar um ciclo de revisões com uma planilha e um caderno.

Quase todo concurseiro já viveu isso: estudou Direito Administrativo em março, se sentiu seguro, e em julho errou uma questão de ato administrativo que sabia responder de olhos fechados. A conclusão automática é "preciso estudar mais". Quase sempre é a conclusão errada.

O problema raramente é a quantidade de estudo. É o intervalo entre a primeira leitura e a revisão.

O que a curva do esquecimento diz — e o que ela não diz

Hermann Ebbinghaus mediu, no fim do século XIX, quanto de um conteúdo novo se perde com o tempo sem nenhuma revisão. A queda é brutal nas primeiras 24 horas e vai desacelerando. Décadas de pesquisa depois refinaram a descoberta principal: cada revisão bem colocada achata a curva. Depois da terceira ou quarta, o mesmo conteúdo passa a durar meses em vez de dias.

O detalhe que muita gente ignora: revisar cedo demais desperdiça a revisão. Se você reler a matéria duas horas depois de estudar, ainda está tudo fresco, o cérebro não faz esforço nenhum e o ganho é pequeno. O efeito aparece quando você revisa no momento em que já está começando a esquecer — quando lembrar exige esforço.

É contraintuitivo: a revisão que parece difícil é a que funciona. A que parece fácil foi cedo demais.

O ciclo que funciona na prática

Para concurso, com edital extenso e prazo de meses, um ciclo de quatro revisões dá conta:

RevisãoQuandoO que fazer
R124 horas depoisReler o resumo próprio e refazer as questões erradas
R27 dias depoisSó questões novas do assunto. Sem reler a teoria
R330 dias depoisQuestões novas. Se errar mais de 30%, voltar à teoria
R490 dias depoisBateria de questões misturada com outros assuntos

Repare que a teoria só volta a aparecer se o desempenho cair. A partir da R2, a revisão é feita de questões, não de leitura. Reler PDF dá sensação de produtividade e quase nenhum resultado — você reconhece o texto e confunde reconhecimento com conhecimento.

O que fazer no dia da revisão

A regra é simples: tente lembrar antes de conferir. Sempre.

Se a revisão de hoje é "atos administrativos", pegue uma folha em branco e escreva os cinco requisitos do ato antes de abrir qualquer coisa. Vai sair torto, vai faltar um. Esse esforço de recuperar da memória é exatamente o que consolida — mais do que ler os cinco requisitos escritos bonitos no material.

Depois disso, resolva questões. Se acertar acima de 80%, marque o assunto como estável e mande para a próxima revisão do ciclo. Abaixo de 60%, o assunto volta para o começo: R1 amanhã.

Como controlar isso sem aplicativo

Não é preciso Anki nem nenhuma ferramenta paga. Uma planilha com cinco colunas resolve:

Assunto | Data do estudo | R1 | R2 | R3 | R4

Ao terminar um assunto, você preenche a data do estudo e calcula as quatro datas seguintes (+1, +7, +30, +90 dias). Toda manhã, filtra a planilha pela data de hoje e vê o que caiu para revisar. Leva dois minutos para montar e funciona por meses.

Se preferir papel, use o caderno de índice: uma página por semana, listando o que vence naquela semana. O mecanismo importa menos que a disciplina de olhar a lista antes de decidir o que estudar no dia.

O erro que arruína o ciclo

O erro clássico é tratar a revisão como opcional — aquilo que se faz "se sobrar tempo". Nunca sobra.

Inverta: a revisão do dia vem primeiro, antes de qualquer matéria nova. Se o seu dia tem três horas, e a revisão pede quarenta minutos, você estuda matéria nova por duas horas e vinte. Não é perda: matéria nova sem revisão é matéria que você vai perder de qualquer forma, e aí terá gastado o tempo duas vezes.

Quem está em reta final costuma inverter a proporção de propósito: 70% revisão, 30% conteúdo novo. Nas últimas duas semanas, praticamente 100% revisão. Assunto que você nunca viu, faltando dez dias para a prova, quase nunca compensa o tempo que rouba do que você já sabe pela metade.

Um roteiro de primeira semana

Se você quer começar hoje:

  1. Liste os assuntos que já estudou e não revisou. Vai ser uma lista deprimente — tudo bem.
  2. Ordene por peso no edital, não por afinidade. O que cai mais vem primeiro.
  3. Pegue os cinco primeiros e faça R1 nesta semana, um por dia.
  4. Cada assunto novo que entrar a partir de agora já nasce com as quatro datas marcadas.

Em três semanas o ciclo se estabiliza e você para de ter aquela sensação de estar sempre recomeçando do zero.


Quer testar se a revisão pegou? Resolva um bloco de questões do assunto e veja o percentual de acerto. É o único termômetro honesto — a sensação de "eu sei isso" mente com frequência.

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