(...) plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, *macadamizai estradas, fazei caminhos de ferro, construí
passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa
como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai: reduzi tudo
a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. ? No fim de tudo
isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas
políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho
desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para
produzir um rico?
*Macadamizar: pavimentar.
(Almeida Garrett, Viagens na minha terra. São Paulo: Ateliê Editorial, 2012, p.77)
Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias;
tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices.
(Almeida Garrett, Viagens na minha terra. São Paulo: Ateliê Editorial, 2012, p.190)
Vários discursos organizam a estrutura narrativa do romance Viagens na minha terra, de Almeida Garrett. Isso permite
afirmar que a visão de mundo dessa narrativa